Será que estou fazendo o certo?

Estava eu subindo uma conhecida avenida bem no centro da cidade em que eu moro, no horário de almoço, devidamente acompanhado de meus pensamentos. Foi quando avistei uma senhora sentada no chão da calçada, num vão da entrada de um banco, meio corpo na entrada, meio corpo na calçada, corpo retorcido para não incomodar os transeuntes que ali passavam. Mais não ao ponto que fosse tida como invisível, pois estendia suas mãos a todos que ali passavam, atrás de míseras moedas. Com um pano branco e velho envolvido na cabeça cobrindo os cabelos já grisalhos, misturados a roupas surradas, ao rosto abatido e com olhar melancólico, desenhava o conjunto da sua situação.
Abri minha carteira, doando R$ 0,60 centavos e fui tomar o rumo da vida. Logo após alguns passos fui tomado por uma sensação estranha. Algo me apunhalou o coração e me fez voltar aos fatos e questionar se aquela senhora já tinha almoçado. Retornei e a indaguei se já havia almoçado e com um olhar ainda mais melancólico fez um sinal com a cabeça indicando que não. A convidei para comer um marmitex num restaurante bem próximo, apenas alguns metros. Com passos curtos, me acompanhava e observava, seguia-me de longe. Entrei no restaurante, escolhi o cardápio, paguei e deixei um recado para que quando chamassem meu nome era para entregar a uma senhora de pano branco em volto da cabeça e justifiquei que a mesma tinha vergonha de entrar, portanto preferiu esperar lá fora. Percebi que seu receio era das pessoas, pois se encontravam higienizadas, com roupas novas, cabelos penteados, sorrisos perfeitos e com dinheiro para almoçar em locais bem conservados e limpos. Na minha saída encontrei-a recostada num canto da parede como se não quisesse ser vista, expliquei que em 10 minutos seu almoço seria entregue e que voltaria pela mesma rua e me avisasse caso algo de contrário acontecesse. Assim fui resolver os meus assuntos iniciais. Agradeceu-me com voz baixa e sorrateira, nem ouvi ao certo o que me disse. Provavelmente sua voz era baixa por cansaço da vida.
Segui meu caminho e em alguns metros, não muito longe, na mesma calçada. Avistei uma segunda senhora, um pouco mais nova, também pedindo esmolas, da mesma forma, acoada, com roupas simples e sujas, meu coração pulsou e minha consciência falou…
-Vai pagar um marmitex para essa também?
Quis me entristecer mais respondi com firmeza, minhas atitudes não foram feitas para uma mendiga e sim pela senhora que existe embaixo daquela carapaça. Minha pretensão não é curar a fome do mundo. Fiz por que assim decidi fazer.
Refletindo aquela mensagem, será que não fiz isso para não me sentir culpado já que tinha comida em casa? Será que não fiz isso para me libertar do sentimento de culpa, pois naquele momento tinha dinheiro o suficiente para pagar o almoço por uma semana para aquela senhora? Será que não fiz isso para me justificar com Deus e mostrar o quanto sou bomzinho? De alguma forma essas perguntas impenitentes têm sua razão. Pois, nem me dei ao trabalho em perguntar o nome daquela mulher, tentei apenas matar sua fome. Bom, não dei muita importância àquela voz e segui meu caminho, sem ao menos doar alguns centavos a outra pedinte.
Voltei pelo mesmo trajeto para me certificar que a primeira senhora tinha recebido a marmita e almoçado.
Foi quando me deparei em frente à outro banco  naquela mesma rua só em calçadas opostas. Avistei a primeira senhora mais a segunda senhora e a marmita amassada dentro de um saco plástico transparente, indicando que as duas tinham almoçado. Percebi que a senhora me reconheceu. Mais continuei meu caminho.
Sei que não matei a fome daquela mulher e que foi por alguns instantes. Sei que não cabe a mim esse trabalho, me senti na obrigação de dividir um pouco a mais com aquela senhora do que apenas alguns míseros centavos. E se a obrigação existe, onde está a glória? Não fiz nada demais.
Não sei a verdadeira situação daquela senhora, se o seu olhar melancólico é verdadeiro ou artístico. Não estava ali para julgá-la e tão pouco ser julgado. Fiz por que senti e não me arrependo, nem tudo na vida tem que ter explicação apenas deve ser feito. Nem me preocupei se Deus estava vendo as minhas atitudes naquele instante, ou se foi certo ou errado. Apenas fiz. Agora é passado.
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